✨ Introdução 2026-08-31

As Estrelas Behenianas

As Estrelas Behenianas, também chamadas de Behenii (no singular, Behenius), são um grupo de quinze estrelas fixas que a magia astrológica medieval e renascentista considerava excepcionalmente poderosas [1, 4]. Em português, alguns chamam de Estrelas Behenias. Mas em inglês são “Behenian stars“ e pra mim “Behenianas“ soa melhor, então vou chamar assim, mesmo.

O nome vem do árabe bahman [1, 2, 3]. Todo mundo traduz como “raiz” ou “fonte”: bahman entrou nos herbários latinos como behen, que era o nome comercial de um grupo de raízes medicinais importadas secas para a Europa, de identificação incerta até hoje — o behen branco, o behen vermelho [15]. Antes de virar metáfora, a palavra nomeava raiz de botica mesmo.

Para os magos medievais, essas quinze estrelas eram as raízes de onde brotava o poder dos sete planetas; a estrutura que sustenta e alimenta tudo o que veio depois, como as raízes de uma árvore sustentam e alimentam os galhos.

O sistema como a gente conhece hoje foi popularizado por Henrique Cornélio Agrippa, no Três Livros de Filosofia Oculta, publicado em Colônia em 1533 [4]. Mas o próprio Agrippa atribui o conhecimento a Hermes Trismegisto, a partir de um tratado latino medieval chamado De Quindecim Stellis, “Sobre as Quinze Estrelas” [1, 5].

A ideia de que as quinze teriam infundido seus poderes nos sete planetas “no início do Universo” aparece bastante em textos esotéricos contemporâneos, mas não está formulada assim nem em Agrippa nem no texto de Hermes. O Picatrix, o grande manual árabe de Magia astral, afirma que “o poder das estrelas fixas foi a primeira coisa jamais criada, sem nada que a precedesse em primazia“ [14]. E Agrippa fecha o capítulo em que trata das estrelas fixas dizendo que, embora muitos efeitos venham delas, nós os atribuímos aos planetas, porque os planetas “executam tudo aquilo que as estrelas superiores lhes comunicam” [4].

“Ptolomeu, que certamente conhecia a obra de Platão, teria considerado apropriado e correto traduzir o impacto e o significado mitológico de cada estrela fixa em uma combinação planetária. O objetivo não era ignorar as estrelas fixas do ponto de vista mitológico, mas sim buscar seu possível poder planetário, sugerido por Platão. Contudo, com o passar do tempo, parece que esses significados planetários ganharam destaque, levando os astrólogos a perder ou esquecer as outrora grandiosas histórias, lições morais e ensinamentos de vida associados a cada estrela. Assim, a combinação de todos esses fatores — o uso de graus eclípticos projetados para as estrelas, sua posterior modificação por Ulugh Beg e Regiomontanus, e a perda de muitos de seus significados originais devido à redução a expressões planetárias — fez com que as estrelas fixas perdessem sua posição central de importância na astrologia.”
Brady’s Book of Fixed Stars

Então, como a gente já falou antes, as estrelas fixas vêm primeiro, e os planetas são o canal por onde a força delas chega até nós.

Na prática, o sistema funciona assim: cada uma das quinze recebe uma natureza planetária e, a partir dela, um conjunto de correspondências materiais — uma pedra, uma erva e um sigilo próprio. Esses elementos eram combinados na confecção de um talismã, feito em uma hora astrológica precisa, destinado a capturar a influência daquela estrela e produzir um efeito específico: atrair riqueza, proteger contra feitiçaria, curar uma doença, apaziguar um conflito etc [4, 9].

Christopher Warnock, que é quem mais trabalha com esse material hoje, resume a importância do tratado de Hermes em uma frase: mais do que dar as pedras e as ervas, o texto explica os poderes mágicos de cada estrela, o que permite ao mago escolher a estrela apropriada para o objetivo que quer alcançar [9].

Correspondências das Estrelas Behenianas


Essas são as correspondências de Agrippa cruzadas com o poema das quinze estrelas na tradução que Christopher Warnock traz no apêndice II do livro dele (pedra e erva) [4, 9]. Cada uma vem assim: estrela (constelação) → natureza planetária → ⚙️ metal → 💎 pedra → 🌿 erva → ✨ uso — a ordem em que Agrippa monta o talismã (metal, pedra engastada nele, erva por baixo) mais o efeito que ele descreve pra imagem gravada em cima.

Algol (Perseu) → Saturno e Júpiter

⚙️ chumbo · 💎 diamante · 🌿 heléboro-negro

✨ favorece petições, dá coragem e ousadia, protege o corpo e ajuda contra feitiçaria — devolve pra quem te atacou os próprios feitiços

Plêiades (Touro) → Lua e Marte

⚙️ mercúrio (azougue) · 💎 cristal · 🌿 funcho

✨ aumenta a luz dos olhos, reúne espíritos, levanta ventos, revela segredos e coisas perdidas

Aldebaran (Touro) → Marte e Vênus

⚙️ ferro · 💎 carbúnculo · 🌿 anabulla (não identificada com segurança)

✨ dá riqueza e honra

Capella (Cocheiro) → Júpiter e Saturno

⚙️ estanho · 💎 safira · 🌿 marroio

✨ torna quem carrega bem aceito e honrado diante de reis e autoridades; alivia dor de dente

Sirius (Cão Maior) → Vênus

⚙️ cobre · 💎 berilo · 🌿 sabina (Juniperus sabina)

✨ dá honra, boa vontade e o favor de pessoas e espíritos do ar; ajuda a apaziguar e reconciliar reis, príncipes e outras pessoas

Procyon (Cão Menor) → Mercúrio e Marte

⚙️ mercúrio (azougue) · 💎 ágata · 🌿 prímula

✨ dá o favor dos deuses, dos espíritos e das pessoas; protege contra feitiçaria e preserva a saúde

Regulus (Leão) → Júpiter e Marte

⚙️ estanho · 💎 gorgonza, não identificada — Agrippa dá granada · 🌿 celidônia

✨ torna a pessoa temperada, apazigua a ira e dá favor

Alkaid (Ursa Maior) → Vênus e Lua

⚙️ cobre · 💎 pedra-ímã · 🌿 chicória

✨ protege contra encantamentos e mantém quem carrega seguro em viagens

Asa do Corvo (Corvo) → Saturno e Marte [Gienah ou Algorab]

⚙️ chumbo · 💎 ônix · 🌿 azeda

✨ dá coragem e disposição para o embate; dá poder de afastar espíritos malignos ou de reuni-los; útil contra a malícia de pessoas, ventos e forças hostis

Spica (Virgem) → Vênus e Mercúrio

⚙️ cobre · 💎 esmeralda · 🌿 sálvia

✨ traz riqueza, ajuda a vencer disputas, afasta escassez e desgraça

Arcturus/Alcameth (Boieiro) → Marte e Júpiter

⚙️ ferro · 💎 jaspe · 🌿 tanchagem

✨ bom contra febres; estanca e retém o sangue

Alphecca/Elpheia (Coroa Boreal) → Vênus e Marte

⚙️ cobre · 💎 topázio · 🌿 alecrim

✨ dá a boa vontade e o amor das pessoas; favorece a castidade

Antares (Escorpião) → Marte e Júpiter

⚙️ ferro · 💎 cornalina · 🌿 aristolóquia

✨ dá entendimento e memória, melhora a aparência, afasta e prende espíritos malignos

Vega (Lira) → Mercúrio e Vênus

⚙️ mercúrio (azougue) · 💎 crisólito · 🌿 segurelha

✨ torna magnânimo e orgulhoso; dá poder sobre espíritos e animais

Deneb Algedi (Capricórnio) → Saturno e Mercúrio

⚙️ chumbo · 💎 calcedônia · 🌿 manjerona

✨ traz prosperidade — mas também aumenta a ira

A natureza planetária que Agrippa dá às Behenianas nem sempre é a mesma que Ptolomeu deu, e que Robson, Brady e Estelle Daniels repetem [4, 9-12]. Sirius, por exemplo, é associada a Vênus por Agrippa, e a Júpiter com um toque de Marte por Ptolomeu. Pra gente, aqui, todas as associações são válidas e falam de temas diferentes daquela mesma estrela.


Glifos (sigilos) das Estrelas Behenianas

Mas é claro que eu, curiosa e questionadora como sou, parei para questionar:

Por que exatamente essas 15 estrelas?


Resumidamente, não dá pra saber. Temos hipóteses que foram investigadas e não foram confirmadas:

  1. São as 15 estrelas mais brilhantes do céu?

Não. Algumas, como as Plêiades, Algorab e Deneb Algedi, não entram nem na lista das 100 estrelas mais brilhantes. Enquanto isso, Canopus, que é a segunda estrela mais brilhante do céu inteiro, ficou de fora.

  1. São as 15 estrelas de primeira magnitude de Ptolomeu?

Essa é a hipótese de Lynn Thorndike [8, via 9], o grande historiador da magia, e é a única tentativa séria de explicação que eu encontrei: seriam quinze porque Ptolomeu classificou quinze estrelas como de primeira magnitude no catálogo do Almagesto [9, 13]. Mas não confirma.

Seis das Behenianas são fracas demais para caber nessa contagem: Algol, as Plêiades, Alkaid, Algorab, Alphecca e Deneb Algedi. E seis estrelas que qualquer contagem antiga põe em primeira magnitude ficaram fora da lista: Canopus, Achernar, Fomalhaut, Altair, Rigel e Betelgeuse. Sobra uma coincidência no número e mais nada.

  1. Elas estão próximas à eclíptica?

Algumas sim, não todas. Só sete das quinze ficam a menos de quinze graus da faixa por onde o Sol caminha. Rigel, Betelgeuse e Altair, que ficaram de fora, estão todas mais perto da eclíptica do que Vega, Alkaid e Alphecca.

  1. Elas estão espalhadas pela roda do zodíaco?

A gente poderia pensar na lógica de termos estrelas para cada signo do zodíaco, mas... também não. Elas só cobrem de Touro até Aquário. De 13 graus de Aquário até 16 graus de Touro existe um vazio de 93 graus, quase um quarto do céu, sem nenhuma Beheniana.

  1. Elas aparecem no mundo inteiro?

Não. Para qualquer latitude, algumas estrelas nunca vão nascer, ou nunca vão se pôr [11, Apêndice B]. Mas todas essas quinze eram vistas e em Alexandria, onde floresceu o Hermetismo e nasceu o Quindecim Stellis, e em Toledo, onde ele foi traduzido (obviamente, várias outras estrelas de maior magnitude também eram, então isso não explica nada)1.

A herança da herança do original


O De Quindecim Stellis é bem mais bagunçado do que a gente imagina quando lê “tratado atribuído a Hermes Trismegisto”. Pra começar, ele é catalogado pelos estudiosos de textos herméticos medievais como Liber de Quindecim Stellis, atribuído a “Hermes Abhaidimon”, e datado dos séculos XII ou XIII [5]. Mas em alguns manuscritos ele aparece com outro título: Quadripartitum Hermetis, o Quadripartido de Hermes, porque o texto é organizado em quatro partes, nesta ordem: quinze estrelas, quinze pedras, quinze plantas, quinze imagens [5].

Só tem um detalhe: não temos nem o original grego, nem a tradução latina direta dele. O que chegou até nós é a tradução latina de uma espécie de síntese, com anotações atribuídas a Masha’allah, o astrólogo persa que trabalhou na corte de Bagdá no século VIII [5]. Os pesquisadores que catalogaram os manuscritos dizem que o conteúdo dos capítulos revela perda de informação em relação ao original, interpolações evidentes e várias contradições internas [5].

O texto circulou tanto que se fragmentou em variantes com nomes próprios — Quadripartitus, Tabula XV stellarum, Liber Enoch, Liber Thebit — e uma versão chegou a ser atribuída ao profeta Enoque [5, 6]. Em 1390, o poeta inglês John Gower colocou um catálogo de estrelas, ervas e pedras dentro do Confessio amantis, teoricamente tirado do próprio De XV Stellis [5].

Ou seja: o texto fundador da magia das estrelas fixas no Ocidente é uma cópia de uma síntese anotada de um original que ninguém mais tem. A edição crítica moderna, que reúne os manuscritos e mostra as divergências entre eles, é de Louis Delatte, publicada em 1942 [7].

As referências de Agrippa


Foi só em 1533 que Agrippa pegou esse material disperso e transformou numa referência estável. No Livro II, capítulo 31, Agrippa fala das estrelas fixas em geral e explica o critério dele: quanto maior, mais brilhante e mais aparente for a estrela, maior e mais forte é o significado dela — “tais são estas estrelas que os astrólogos chamam de primeira e segunda magnitude” [4].

E aí ele lista as que considera mais potentes. São dezoito estrelas:

  1. Navel of Andromeda (Umbigo de Andrômeda / Mirach ou Alpheratz) *
  2. Head of Algol (A Cabeça de Algol)
  3. Pleiades (As Plêiades)
  4. Aldeboram (Aldebaran)
  5. Goat star (Estrela da Cabra / Capella)
  6. Greater Dog star (Cão Maior / Sirius)
  7. Lesser Dog-star (Cão Menor / Procyon)
  8. Kings star / Heart of the Lion (Estrela do Rei / Coração do Leão / Regulus)
  9. Tail of the greater Bear (Cauda da Ursa Maior)
  10. Right wing of the Crow (Asa direita do Corvo)
  11. Left wing of the Crow (Asa esquerda do Corvo)
  12. Spica
  13. Alcameth (Arcturus)
  14. Elepheia (Alphecca / Gemma)
  15. Heart of the Scorpion (Coração do Escorpião / Antares)
  16. Falling Vulture (Butre Cadente / Vega)
  17. Taile of Capricorn (Cauda do Capricórnio / Deneb Algedi)
  18. Shoulder of the Horse (Ombro do Cavalo / Markab ou Scheat, em Pégaso) *

* As duas estrelas marcadas são as únicas que não dá pra identificar com certeza. Agrippa dá uma longitude para cada uma, mas as longitudes dele são copiadas de tabelas mais antigas e não batem direito com a época dele. No caso do Umbigo de Andrômeda, o nome aponta para Alpheratz (Al Surrat al Faras*, “o umbigo do cavalo”, quando a estrela ainda era contada em Pégaso) e a posição aponta para Mirach [10]. No Ombro do Cavalo, nem o nome nem a posição fecham.

Ele lista outras estrelas junto às Behenianas, mas quando ele cataloga as correspondências, ele só fala das 15 herdadas do Quindecim Stellis.

Christopher Warnock também reconhece isso: o texto de Hermes inclui algumas, mas não todas, das estrelas fixas mais brilhantes e mais conhecidas [9]. Ele não tenta resolver. Eu até queria, mas não vai dar.

“Minha sensação é que cada estrela e cada constelação tem um espírito e pode ser invocada para vários efeitos. Mas, das mais de mil estrelas visíveis, temos informação específica, como a fornecida pelo Hermes sobre as 15 Estrelas Fixas, para apenas umas poucas. Sem essa informação, não sabemos que efeito a estrela ou a constelação terá, nem sabemos como invocá-la. Minha visão é que boa parte dessa informação foi originalmente obtida por magos em sonhos ou visões. Minha esperança é que praticantes contemporâneos tenham experiências diretas semelhantes com os espíritos das estrelas fixas e das constelações, para que possamos voltar a invocá-las e a criar seus talismãs.”

Christopher Warnock - Fixed Star, Sign and Constellation Magic in the Renaissance

A gente aceita a herança de séculos, aproveita o poder da egrégora, e busca catalogar as outras estrelas.

Os Talismãs Estelares


No texto de Hermes, cada estrela tem três correspondências — uma erva, uma pedra e um caractere gravado — e as três precisam se encontrar num momento muito específico. A entrada de Aldebaran no manuscrito Bodleian 52 — um dos que sobreviveram, traduzido inteiro por John Michael Greer — é assim:

“Semente de cardo-mariano colocada sob um carbúnculo com o caractere [gravado nele], com a Lua conjunta a [Aldebaran e ao] Ascendente ou Meio do Céu, aumenta as riquezas e traz grandes honras.” [9, Apêndice I]

As quinze entradas repetem esse mesmo desenho, mudando só a erva, a pedra e o efeito. (Note que aqui a erva de Aldebaran é cardo-mariano, enquanto no poema do Gower é a misteriosa anabulla. As listas divergem em detalhes assim o tempo todo — é o preço de um texto copiado à mão por seiscentos anos.)

E repare no que aparece em todas elas: a Lua.

Na cosmologia que sustenta esse sistema, a Lua é a fronteira entre o céu e o mundo material, e é ela que carrega a influência da estrela até aqui embaixo [9]. Sem a Lua fazendo a ponte, a estrela está longe demais.

Agrippa, séculos depois, descreve o mesmo procedimento na forma de um anel:

“Ora, o modo de fazer esse tipo de anel é este: quando alguma estrela ascende favoravelmente, com aspecto ou conjunção favorável da Lua, deve-se tomar uma pedra e uma erva que estejam sob aquela estrela, e fazer um anel do metal que convém a ela, e nele engastar a pedra, pondo a erva ou a raiz por baixo; sem omitir a inscrição das imagens, dos nomes e dos caracteres, e também as devidas fumigações.” [4]

O Warnock traduz tudo isso em quatro condições que precisam acontecer ao mesmo tempo [9]:

  1. a estrela nascendo ou culminando — ou seja, no Ascendente ou no Meio do Céu, com tolerância de cinco a oito graus para cada lado;
  2. a Lua aplicando conjunção, sextil ou trígono à estrela. Aplicando, não separando: aspecto separativo fala do passado e não serve;
  3. a Lua crescente ou minguante conforme o objetivo — crescente para atrair, minguante para afastar;
  4. a Lua e a estrela sem aflição.

Quando as quatro coincidem, abre uma janela. Ela dura entre quinze e sessenta minutos.

E aqui está a parte severa do sistema: o talismã tem que ficar pronto dentro da janela. O momento eleito é o nascimento do objeto. Fazer a peça antes com calma e só consagrar depois, na hora certa, não vale — ou não funciona, ou funciona fraco demais para valer o trabalho. Por isso gravar um pingente à mão está fora de questão, a menos que você aceite trabalhar só dentro de várias janelas seguidas da mesma estrela, ao longo de semanas.

Pronto o objeto, ainda dentro da janela, vem a consagração: chamar o espírito da estrela para dentro dele. Vela acesa, incenso, o talismã passando na fumaça, a invocação sendo dita. Warnock trabalha num estilo devocional, e faz questão de marcar a diferença: não se comanda esses espíritos, nem se faz cerco de proteção contra eles. Pede-se suas bênçãos [9].

O método do Caminho Adhara


Desde 2014 eu tenho contato profundo com as Estrelas e já testei várias formas de trabalhar com elas. Nesse meio tempo, percebi que a gente não precisa disso tudo, e pra ser muito honesta, eu nunca tive muita paciência pra fazer as coisas com esse tanto de detalhe e especificidade. Eu tentei fazer a coisa toda com Magia Cerimonial lá no começo, mas durou muito pouco. E assim, vamos combinar? A vida que a gente leva hoje não nos permite fazer as coisas desse jeito.

Esse sistema todo — a matemática, a precisão, a janela de tempo, a pedra certa engastada no metal certo — foi construído por gente extremamente privilegiada. Homens com dinheiro, que tinham quem fizesse tudo por eles. Se precisassem de uma pele de leão da África para um amuleto, mandavam alguém buscar e ficavam sentados esperando. As mulheres também não estavam nessa prática, porque estavam cuidando de filho e de casa.

Três mil anos antes de Agrippa, na Mesopotâmia, quem passava a noite medindo a posição das estrelas e calculando o que aquilo significava era o astrônomo real, o astrólogo da corte. Gente que era paga para fazer só isso. Quando você olha para o povo comum, que estava plantando e tentando garantir que ia ter o que comer, esse cálculo todo simplesmente não importava. Essas pessoas faziam talismã de barro, faziam coisinha para vender na feira e davam para quem precisava. Era muito mais simples. E funcionava dos dois jeitos.

Dá para ver o rastro dessa divisão até hoje na diferença entre a Magia cerimonial e a Bruxaria: de um lado o sistema racionalizado, calculado, com um monte de passos; do outro as ervas, a cozinha, o que é rápido e intuitivo e está ao alcance da mão. Um lado teve tempo e dinheiro para se escrever em livro, o outro não.

A gente aqui está do outro lado. A gente estuda, trabalha, cuida de filho, tem relacionamentos, e ainda escolheu um caminho espiritual que demanda bastante estudo e trabalho por si só — e a maioria de nós ainda escolhe estar em mais de um caminho espiritual ao mesmo tempo (a gente é meio doido, né?). É muita coisa pra uma pessoa — e uma vida — só.

O Caminho Adhara nasceu exatamente dessa experiência. A pergunta que me guiou foi essa: e se alguém precisar de ajuda agora, e eu estiver no meio da rua, sem nenhum instrumento mágico comigo? Eu queria algo que eu pudesse fazer num banheiro público, na minha mesa de trabalho, de frente pro computador, ou andando na rua.

Então, no sistema do Caminho Adhara, a gente trabalha com a egrégora do símbolo (que chamamos de glifo estelar). Séculos de gente desenhando aquele caractere para chamar aquela estrela deixaram a força ali dentro. No momento em que você desenha o selo, você traz a vibração, e qualquer fonte de luz serve para alimentar isso: a própria estrela, a Lua, o Sol, uma vela, o que você tiver.

Isso quer dizer que a hora não importa? Não. Quer dizer que ela não é um requisito. Existe poder em usar a hora do planeta, o momento da ascensão da estrela, a ligação com o seu mapa — Magia planetária com dia e hora é uma coisa que eu já fiz e que funciona muito bem. Mas não é só essa forma que funciona.

E bem, esse é o Laboratório Estelar. Estamos aqui pra experimentar, testar, trocar figurinha e descobrir novas formas de fazer. Se você quiser fazer isso com uma comunidade apaixonada pelas estrelas, será muito bem-vinda(o)!

Referências


  1. Augurine. The 15 Behenian Stars: Medieval Astrology’s Most Powerful Fixed Stars. 2026.
  2. Twilight. Fixed Stars in Aquarius, Behenian Stars in General. 2015.
  3. Roth, E. M. The Behenian Stars. 2021.
  4. Agrippa, H. C., Three Books of Occult Philosophy (De Occulta Philosophia libri III). Colônia, 1533; trad. inglesa de 1651. Livro I, cap. 32 (as pedras e ervas de cada estrela); Livro II, cap. 31 (naturezas planetárias, cores e a lista de dezoito estrelas), cap. 47 (”Das Imagens das Estrelas Fixas Behenianas” — as imagens e os efeitos das quinze) e cap. 52 (os caracteres que “Hermes atribuiu às estrelas fixas, e Behenii”).
  5. Sannino, A. (dir.), Bibliotheca Philosophica Virtualis — verbetes Liber de quindecim stellis e Tractatus de quindecim stellis. Università degli Studi di Napoli “L’Orientale”.
  6. Lucentini, P. e V. Perrone Compagni, I testi e i codici di Ermete nel Medioevo. Florença: Edizioni Polistampa, 2001.
  7. Delatte, L., Textes latins et vieux français relatifs aux Cyranides. Liège-Paris: Droz, 1942, pp. 235-288.
  8. Thorndike, L., A History of Magic and Experimental Science. Nova York: Columbia University Press, 1923-1958, vol. II.
  9. Warnock, C., Fixed Star, Sign and Constellation Magic in the Renaissance. Cap. III (eleições de estrela fixa: as quatro condições, a janela de 15 a 60 minutos e o papel da Lua), Cap. IV (a confecção e a consagração do talismã, e o estilo devocional de ritual), Cap. V (as 15 Estrelas Fixas, a hipótese de Thorndike e a passagem sobre o espírito de cada estrela), Apêndice I (O Livro de Hermes sobre as 15 estrelas fixas, tradução de John Michael Greer a partir do Bodleian MS. 52, ff. 44-47 — de onde vem a receita de Aldebaran) e Apêndice II (o poema das quinze estrelas de John Gower, Confessio amantis, Livro VII, com as pedras e ervas). Traduções dos trechos citados feitas por mim.
  10. Robson, V. E., The Fixed Stars and Constellations in Astrology. Londres: Cecil Palmer, 1923.
  11. Brady, B., Brady’s Book of Fixed Stars. York Beach: Samuel Weiser, 1998.
  12. Daniels, E., Astrologickal Magick. York Beach: Samuel Weiser, 1995.
  13. Ptolomeu (Claudius Ptolemaeus), Almagesto (Syntaxis Mathematica), Livros VII-VIII: o catálogo de estrelas com as classes de magnitude. Séc. II d.C. [a contagem das estrelas de primeira magnitude é a que Thorndike usa, ref. 8; não conferi no texto original]
  14. al-Majriti, P.-M. (atrib.), Picatrix (Ghayat al-Hakim). Livro II, cap. 6. Tradução do trecho citado feita por mim.
  15. behen, verbete etimológico. Wiktionary. [fonte terciária, usada só para a transcrição latina medieval do árabe bahman e para a identificação das raízes de botica: o behen branco (Centaurea behen), o behen vermelho e o behen officinarum. A tradução “raiz/fonte” que circula nos textos de astrologia eu não consegui conferir em nenhuma fonte primária]

1

Dados astronômicos (magnitudes, latitudes eclípticas e longitudes precessionadas para 1250 d.C.) calculados a partir do catálogo Hipparcos/ICRS com a biblioteca Astropy, com auxílio do Claude Cowork.