As Estrelas Reais
Eu comecei a trabalhar com as estrelas em 2014. O Caminho Adhara foi estruturado no final de 2020, depois de anos de vários workshops, processos mágicos e estudos. Ao longo desse tempo, minhas pesquisas me trouxeram informações novas, e eu aprendi que as Estrelas Reais são um conceito muito mais recente do que a gente acreditava.
Então, vamos começar com o que escrevi no meu livro, e comentar e corrigir o que precisa ser ajustado.
De acordo com a Bruxaria Italiana e com os cultos estelares da Pérsia, existem quatro estrelas reais, os chamados Anciãos ou Grigori. Eles foram os primeiros seres (ou Deuses, se quiser chamar assim) criados e testemunharam toda a criação. Na Wicca, eles são os Guardiões das Torres de Observação das quatro direções. São eles: Fomalhaut (Norte), Aldebaran (Leste), Regulus (Sul) e Antares (Oeste).
De acordo com as lendas italianas, os Guardiões viveram um tempo sobre a Terra e evoluíram até não necessitarem mais de uma forma física. Eles podem estar ligados às lendas de Atlântida e Lemúria, tendo relação até mesmo com o Antigo Egito. Nas Doutrinas Misteriosas do Egito, uma das frases que eram ditas para acessar o templo era: “Apesar de ser um filho da Terra, minha raça vem das estrelas.”
Na Mesopotâmia, foram construídas torres com os símbolos dos Guardiões, com 82 metros de altura. Essas torres eram chamadas de Zigurates (“montanhas cósmicas”) e elas eram observatórios astronômicos. Nos ritos, os símbolos dos Guardiões eram traçados no ar com tochas e bastões, e seus nomes eram pronunciados. Os antigos povos do Hemisfério Norte usavam essas estrelas para marcar o início das estações: o verão começava quando o Sol nascia em Leão (Regulus); o outono, quando o Sol estava em Escorpião (Antares); o inverno, quando o Sol nascia em Peixe Austral (Fomalhaut); e a primavera era marcada pelo nascer do Sol em Touro (Aldebaran).
Nos mitos estelares, os Grigori eram Deuses que guardavam os céus e a terra. Eventualmente, os gregos os reduziram para os Deuses dos Quatro Ventos e os cristãos para os principados do ar. Sua conexão com as estrelas é vagamente lembrada pela associação dessas estrelas com anjos.
Na Cabala, eles foram associados aos arcanjos. Raven Grimassi, no livro Italian Witchcraft, presume que isso ocorreu porque havia uma ordem similar de anjos conhecida como Observadores (em inglês, Watchers, como são chamados os guardiões das torres de observação). De acordo com a Cabala, os quatro arcanjos líderes eram Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel. Desta forma, os conceitos acabaram se unindo. Várias outras referências associam os Grigori a arcanjos. No Dicionário de Anjos, os Watchers são anjos caídos que ensinaram várias artes aos humanos. Richard Cavendish, no livro The Powers of Evil, menciona que os Watchers eram assim chamados porque eram estrelas, “os olhos da noite”.
Durante meu contato com essas energias, eu comecei a pensar em todos esses conceitos e me perguntar qual era a real ligação entre eles. Se cada arcanjo está associado a uma estrela real, será que todas as estrelas seriam ligadas a anjos? Ou será que estrelas e anjos seriam a mesma coisa com nomes diferentes?
Quando eu fiz essa pergunta para as estrelas, pedi sinais sobre isso. E elas são muito rápidas em seus sinais, como várias pessoas com quem já conversei a respeito também atestaram. No mesmo dia, eu vi três referências a anjos em meu caminho, em lugares bem inesperados. Por isso, entendi que sim, anjos e estrelas correspondem à mesma energia, ou aos mesmos seres (ou Deuses, se você quiser considerar desta forma).
Para a Bruxaria Italiana, os Grigori são os Guardiões dos Planos Dimensionais, protetores do círculo mágico, testemunhas de todos os ritos. Eles guardam os portais astrais e podem permitir ou impedir que um ato mágico se estabeleça. Desta forma, tornam-se importantes gestos rituais e símbolos específicos para “anunciar” a presença de um praticante: os símbolos garantem aos Grigori que aquele que se anuncia jurou não usar a Arte de forma prejudicial. Para este praticante, os portais serão abertos prontamente.
São eles que auxiliam no crescimento espiritual de um (a) Bruxo (a) e que o (a) acompanham após a morte. Nada é escondido deles – eles garantem a lei do Eterno Retorno e as consequências justas pelas ações de cada um. Eles são os guardiões de entradas e saídas, guardiões entre os Mundos que se conectam ao plano físico. Também podem ser chamados de Guardiões da Sabedoria Ancestral ou Guardiões da Arte.
Na minha percepção, ainda existe mais uma estrela Real. Pode ser uma percepção extremamente pessoal, mas acho muito válida de compartilhar, pois ela tem sido bastante forte para mim. Como muitos sabem, eu presto culto a Aset – a Deusa egípcia Isis. Ela, para os egípcios, é a própria estrela Sirius (ou Sopdet), a estrela cuja ascensão nos céus marcava o início de um novo ano - o início da cheia do Nilo, que trazia a fertilidade para a Terra e, assim, a abundância de alimentos. Devido ao papel de Aset como o próprio trono, sem o qual o Faraó não poderia governar, é mais que natural considerá-la também uma estrela real. Em nossas conversas, vários outros praticantes, dentro e fora do Padrim, concordaram com esta associação.
Do meu livro A Magia das Estrelas — Vol 1: Princípios de Magia Estelar [1]
A Real Origem dos Grigori
Eu sempre repeti, confiando cegamente nos livros de Bruxaria, que Fomalhaut, Aldebaran, Regulus e Antares eram as “Estrelas Reais da Pérsia antiga”, um quarteto milenar de guardiãs dos quatro pontos cardeais. Até que eu li no The Behenian Fixed Stars: An Oracle and Guide, de Ryhan Butler e Terry Johnson [2], que esse conceito veio do século XVIII e que a estrela que marcava o Leste na Pérsia era, na verdade, Sirius!
Então eu fui pesquisar a fundo e gastei umas boas horas (e dias) buscando as fontes originais pra entender duas coisas:
- Quais eram as Estrelas Reais da Mesopotâmia?
- Como é que essas quatro Estrelas específicas se tornaram importantes no conceito esotérico e na Bruxaria?
E foi assim que descobri que a história tem um pouco de “telefone-sem-fio” no meio.
A ideia das “Quatro Estrelas Reais” nasce em 1775, na obra Histoire de l’astronomie ancienne, do astrônomo e político francês Jean-Sylvain Bailly [3]. Bailly calculou que, por volta de 3000 a.C., essas quatro estrelas marcavam os dois equinócios e os dois solstícios, e propôs, sem apoio em texto persa ou babilônio antigo, que elas eram as guardiãs do céu mesopotâmico. Em seguida, Charles François Dupuis as chamou de “Estrelas Reais” [4].
Durante o século XIX, essa reconstrução foi amplamente difundida pela literatura astronômica popular, astrológica e ocultista. Autores como François Arago [5], Camille Flammarion [6] e, principalmente, Richard Hinckley Allen [7] ajudaram a consolidar o quarteto formado por Aldebaran, Regulus, Antares e Fomalhaut como um conjunto especial de estrelas [4]. Ao longo do século XX, essa interpretação foi incorporada por diversas correntes do esoterismo ocidental, passando a ser associada aos quatro pontos cardeais, aos quatro elementos e a outras estruturas quaternárias, e sendo adotada por tradições como a Golden Dawn, a Wicca e a Bruxaria Italiana [8, 9].
É importante deixar claro que essa reconstrução histórica não diminui a importância dessas estrelas nem invalida as práticas mágicas que se desenvolveram em torno delas. Os Grigori não precisam ter sua origem na Pérsia antiga para exercerem, dentro das tradições contemporâneas, o papel de guardiões, testemunhas e protetores do círculo mágico. O que a pesquisa histórica coloca em perspectiva é a origem da expressão ”Estrelas Reais da Pérsia” e da narrativa que a acompanha, não a legitimidade da experiência espiritual ou da prática ritual construída ao longo do tempo. Assim como acontece com muitas tradições vivas, seu valor está na continuidade de seu uso, no significado que adquiriu para seus praticantes e na força simbólica desenvolvida ao longo das gerações.
Mas então, quais eram as Estrelas na Pérsia?
Sentinelas do Céu na Mesopotâmia
Para esse povo, o céu era uma grande tábua de jaspe onde os Deuses escreviam mensagens e presságios para as pessoas [10]. Por volta do ano 1000 a.C., num compêndio chamado MUL.APIN, o céu é dividido em três caminhos: o Caminho de Enlil ao norte, o Caminho de Anu no centro, por onde passam o Sol, a Lua e os planetas, e o Caminho de Ea ao sul [11].
Cada caminho tinha suas próprias sentinelas, vistas como guardiões ou chefes estelares designados para vigiar e manter a ordem cósmica nas quatro direções cardeais — os sentinelas do espaço e do tempo. As quatro direções eram frequentemente referidas como os pontos de onde os ventos sopravam, e cada uma era representada por um grupo estelar específico, e não uma estrela única [12]:
- Ao norte, a guardiã era MAR.GID.DA, “o Grande Carro”, o conjunto de estrelas que hoje chamamos de Ursa Maior.
- No Sul, a guardiã era a constelação do Peixe (mulKU), da qual Fomalhaut fazia parte.
- O Velho (MUL.ŠU.GI, Perseu) e as Estrelas (MUL.MUL, as Pleiades) guardavam o Leste.
- Escorpião (Girtab, “Arma afiada” ou “picada ardente”) guardava o Oeste.
As estrelas que posteriormente foram chamadas de Estrelas Reais por Bailly já ocupavam posições de destaque no MUL.APIN. LUGAL (Šarru), “o Rei” (Regulus), pertencia ao Caminho de Enlil; Is-li-e, “a Mandíbula do Touro” (Aldebaran), ao Caminho de Anu; e GABA GIR.TAB, “o Peito do Escorpião” (Antares), ao Caminho de Ea. Ao lado delas, MUL.KAK.SI.SÁ (Šukūdu), “a Flecha” (Sirius), também integrava o Caminho de Anu e desempenhava papel central na marcação do solstício de verão e na sincronização do calendário. Juntas, essas estrelas constituíam algumas das principais referências astronômicas do compêndio, sendo utilizadas para a marcação do tempo, a observação dos astros e a formulação de sistemas de presságios baseados na ordem dos ciclos celestes [11-13].
As Sentinelas no Zoroastrismo
Mais tarde, no Bundahishn — um compêndio cosmológico zoroastrista compilado por volta do século IX d.C., mas que preserva material muito mais antigo, do próprio Avesta — registrou outras quatro estrelas-chefe, uma pra cada direção: Haftorang (também chamado Haptoring ou Haftōreng) comanda o Norte, Tishtar comanda o Leste, Vanand comanda o Sul e Sataves comanda o Oeste [14, 15]. Foram esses nomes que Bailly deduziu, sem nenhuma evidência, que deveriam ser as quatro estrelas dos seus cálculos, mas elas não são as mesmas estrelas [4].
Tishtar é, com bastante segurança, Sirius: essa identificação é confirmada por fontes clássicas como Plutarco e sustentada pelo estudo de referência do iranista Antonio Panaino sobre o tema, hoje a maior autoridade acadêmica em astronomia avéstica [14, 16, 17]. Haftorang, o líder do Norte, é a Ursa Maior [18]. As outras duas identificações são mais incertas. Vanand, guardiã do Sul, costuma ser associada a Vega, mas também já foi proposta como Altair, Fomalhaut ou Sargas (Kappa Scorpii); não há consenso fechado entre os especialistas [14, 16, 17]. Sataves, guardiã do Oeste, é onde a coisa fica mais incerta: alguns resumos populares a identificam como Canopus ou Vega, mas a fonte acadêmica mais sólida sobre o assunto, a Encyclopaedia Iranica, com base no próprio Tištar Yašt avéstico, aponta Sataves como “provavelmente Fomalhaut” [14].
Então, sim: existiu uma tradição persa real de quatro sentinelas guardando as quatro direções. Só que elas não eram chamadas de estrelas reais, e as correspondências são outras: Sirius e Ursa Maior com certeza, e muito provavelmente Vega e Fomalhaut, não o quarteto fechado de Aldebaran, Regulus, Antares e Fomalhaut que a Bruxaria Italiana e a Wicca herdaram.
As guardiãs do céu em diferentes tradições e tempos, com as prováveis Estrelas/constelações que ocupavam as quatro direções. Feito por NotebookLM.
Os Verdadeiros Zigurates
No meu livro [1], eu havia escrito que os zigurates da Mesopotâmia eram torres erguidas com os símbolos dos Grigori, com 82 metros de altura. Essa informação também foi encontrada em livros esotéricos, e é, provavelmente, mais um efeito do telefone-sem-fio.
Os zigurates não tinham relação com os quatro Guardiões das direções, nunca tiveram. Já foram encontrados mais de 30 deles em diferentes cidades da Mesopotâmia, o mais antigo em Eridu, ainda no terceiro milênio a.C. Cada um era dedicado a uma divindade: o Etemenanki, o mais famoso deles, erguido em Babilônia, era dedicado a Marduk, e seu nome significa algo como “a Casa do Fundamento do Céu e da Terra” — provavelmente a estrutura que inspirou o relato bíblico da Torre de Babel [16].
O Etemenanki tinha sete andares, não quatro, e cada um era pintado de uma cor diferente: branco, preto, vermelho, branco de novo, laranja-avermelhado, prata e, no topo, dourado [8]. O historiador grego Diodoro Sículo, no século I a.C., chegou a propor que esses sete níveis representavam os cinco planetas visíveis a olho nu somados ao Sol e à Lua [16]. No topo havia um templo, e segundo o próprio Diodoro, era dali que os sacerdotes caldeus faziam suas observações do céu, aproveitando a altura da estrutura: um culto voltado ao destino do rei e da nação, lido nos presságios celestes [10, 16].
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Segundo a tábua mesopotâmica que descreve sua planta, o Etemenanki teria uns 91 metros (300 pés), e o historiador Heródoto, que o visitou ainda de pé no século V a.C., descreve algo na mesma escala [16]. Hoje, porém, só restam suas fundações: a estrutura em si foi destruída há séculos, e nenhuma altura pode mais ser confirmada por escavação. Mesmo assim, ele era o maior zigurate já erguido; os demais, como o de Ur, eram bem menores [16]. Não existe registro de nenhum zigurate erguido para os Grigori ou para qualquer quarteto de quatro guardiões: essa ideia, como a do próprio quarteto, é posterior ao período mesopotâmico, e não nasceu dele.
A Genealogia das Estrelas Reais
A ideia de dividir o céu é ainda mais antiga que o MUL.APIN [10]. Mas o mais importante disso tudo não é se os Grigori são ou não super antigos. O conceito moderno das Estrelas Reais não é uma tradição única, transmitida intacta desde a antiguidade; ele é resultado da fusão de tradições diferentes, nascidas em épocas e lugares diferentes, que só se encontraram muito depois.
A linha do tempo abaixo mostra como essas diferentes tradições surgiram de forma independente e só foram reunidas na construção do conceito moderno das Estrelas Reais:
1200 a.C. — Os textos “Três Estrelas para Cada Mês” na Mesopotâmia
Surgem as primeiras listas formais que organizam o céu em três grandes Caminhos: Enlil, Anu e Ea, cada uma com suas próprias estrelas de referência e funções astronômicas [10, 11].
1000 a.C. — MUL.APIN
Os três Caminhos são sistematizados no compêndio babilônico MUL.APIN, que reúne nomes de estrelas, constelações, calendários e métodos de observação [10, 11]. A organização do céu baseava-se principalmente nos três Caminhos e em grupos estelares, e não em quatro estrelas individuais associadas aos pontos cardeais.
900–400 a.C. → séc. IX d.C. — A tradição persa
Na camada mais recente do Avesta, aparecem quatro grandes sentinelas do céu: Haftorang (Norte), Tishtar (Leste), Vanand (Sul) e Sataves (Oeste) [14]. Esses textos foram preservados oralmente durante séculos, escritos no período sassânida (séculos IV–VI d.C.) e chegaram até nós compilados no Bundahishn, no século IX d.C. [15].
Séculos I–XVI — A tradição hermética e a magia estelar
Em paralelo às tradições mesopotâmica e persa, desenvolve-se uma terceira vertente: a da magia astral. Inspirada pela tradição hermética [19], pela astrologia helenística e, posteriormente, por obras como o Liber Hermetis [20], o Picatrix [21] e a De Occulta Philosophia, de Heinrich Cornelius Agrippa [22], consolidam-se as práticas de talismãs estelares e correspondências mágicas das estrelas behenianas. Em nenhuma dessas obras, entretanto, aparece o conceito de “Quatro Estrelas Reais da Pérsia”.
1775 — Jean-Sylvain Bailly
Em Histoire de l’astronomie ancienne, Bailly propõe que Fomalhaut, Aldebaran, Regulus e Antares preservariam a memória de uma tradição persa antiga ligada aos quatro pontos cardeais [3].
Século XIX — O esoterismo ocidental
A hipótese de Bailly foi gradualmente difundida pela literatura astronômica popular, astrológica e ocultista. Ao longo do século XIX, o quarteto estelar passou a ser associado a sistemas simbólicos quaternários — como os quatro elementos, os quatro pontos cardeais, os quatro arcanjos e os guardiões das direções — sendo progressivamente incorporado ao esoterismo ocidental [4, 7, 23, 24]. É nesse contexto que se consolida o conceito moderno das Quatro Estrelas Reais.
Século XX — A incorporação pela bruxaria moderna
Ao longo do século XX, esse quarteto já consolidado foi incorporado por diversas correntes da magia cerimonial, da Bruxaria Italiana e da Wicca, passando a ser frequentemente apresentado como uma tradição persa antiga. Nesse contexto, Aldebaran, Regulus, Antares e Fomalhaut passam a ser conhecidos como Grigori, Watchers, Guardiões ou Guardiões das Torres de Observação, exercendo funções de proteção ritual e guarda das quatro direções [25-27].
Timeline das Estrelas das Direções, por ChatGPT.
Sirius: um reencontro inesperado
Há estrelas que a gente escolhe, e há estrelas que nos escolhem primeiro, muito antes de sabermos nomeá-las. Sirius sempre foi assim comigo: brilhou no meu caminho antes de eu entender todo seu significado. Quando finalmente fui atrás das fontes mesopotâmicas, o que encontrei me trouxe um quentinho no coração. Lá estava ela, brilhando também nos textos antigos: o Caminho de Anu, a via central do céu por onde passavam o Sol, a Lua e os deuses errantes, e depois como uma sentinela, guardando o Leste.
A ligação que fazemos hoje com Sirius nasceu da nossa vivência, da nossa prática e experiência. E ainda assim, a mesma estrela que sentimos já pulsava importante pros babilônios há cinco milênios — com outro nome, outro rosto, outra função, mas a mesma luz chamando atenção.
Não sei vocês, mas eu não acredito em coincidências. Acho bonito pensar que algumas estrelas atravessam civilizações inteiras, cada uma exercendo ali uma função que fazia sentido para o seu tempo. Esse, pra mim, é o verdadeiro presente desta pesquisa: perceber as camadas de sentido que cada povo, cada geração, deixou empilhadas sobre o mesmo céu.
No Caminho Adhara, gnose e pesquisa nunca competiram. A experiência é o que me faz sentir Sirius pulsando; a história é o que me mostra que esse pulso ecoa muito além de mim. E é nesse encontro — entre o que vivemos e o que descobrimos — que a nossa prática ganha o seu verdadeiro valor: quando as duas coisas se tocam, a nossa conversa com as estrelas fica mais profunda, mais consciente, mais presente.
Aprender tudo isso me levou a uma pergunta inevitável:
Se o conceito de Estrelas Reais não se originou exatamente na Pérsia... de onde vieram as outras ideias que praticamos hoje? Como começou o culto às estrelas? O que foi preservado e o que se transformou ao longo do tempo?
É o que eu quero tentar responder nas próximas semanas!
Referências
1. Daw, A., A. Athenodoros, and S. Zahara, A Magia das Estrelas: Princípios de Magia Estelar. 2019: Amazon Digital Services LLC - Kdp.
2. Butler, R. and T. Johnson, The Behenian Fixed Stars: An Oracle and Guide. Medieval Astrology Guide.
3. Bailly, J.-S., Histoire de l’astronomie ancienne, depuis son origine jusqu’à l’établissement de l’École d’Alexandrie. 1775, Paris.
4. Davis, G.A., Jr., The so-called royal stars of Persia. Popular Astronomy, 1945. 53: p. 149.
5. Arago, F., Astronomie Populaire. 1861, Paris: Gide et J. Baudry.
6. Flammarion, C., Histoire du Ciel. 1872, Paris: Librairie Hachette.
7. Allen, R.H., Star Names: Their Lore and Meaning. 1963, New York: Dover Publications.
8. Grimassi, R., Hereditary Witchcraft: Secrets of the Old Religion. 1999, St. Paul: Llewellyn Publications.
9. Grimassi, R., Italian Witchcraft: The Old Religion of Southern Europe. 2000, St. Paul: Llewellyn Publications.
10. Rochberg, F., The Heavenly Writing: Divination, Horoscopy, and Astronomy in Mesopotamian Culture. 2004, Cambridge: Cambridge University Press.
11. Hunger, H. and D. Pingree, MUL.APIN: An Astronomical Compendium in Cuneiform. 1989, Horn: Verlag Ferdinand Berger & Söhne.
12. Hunger, H. and D. Pingree, Astral Sciences in Mesopotamia. 1999, Leiden: Brill.
13. Rogers, J.H., Origins of the Ancient Constellations: I. The Mesopotamian Traditions. Journal of the British Astronomical Association, 1998. 108(1): p. 9–28.
14. Panaino, A., Tištrya, in Encyclopaedia Iranica. 2005.
15. West, E.W., The Bundahishn, in Sacred Books of the East. 1897, Clarendon Press: Oxford.
16. Panaino, A., Tištrya, Part I: The Avestan Hymn to Sirius. Serie Orientale Roma LXVIII.1. 1990, Rome: IsMEO.
17. Panaino, A., Tištrya, Part II: The Iranian Myth of the Star Sirius. Serie Orientale Roma LXVIII.2. 1995, Rome: IsMEO.
18. Panaino, A., Haftōrang, in Encyclopaedia Iranica. 2002. p. 533–534.
19. Copenhaver, B.P., Hermetica: The Greek Corpus Hermeticum and the Latin Asclepius. 1992, Cambridge: Cambridge University Press.
20. Charles, B. and G. Dorian Gieseler, The Liber Hermetis. 2022, Turnhout: Brepols.
21. al-Majriti, P.-M., Picatrix (Ghayat al-Hakim). 2013: Grupo de Traduções Ocultas (G.T.O.).
22. Agrippa, H.C., Three Books of Occult Philosophy (De Occulta Philosophia libri III). 1651: Ed. Joseph Peterson (2000).
23. Goodrick-Clarke, N., The Western Esoteric Traditions: A Historical Introduction. 2008, Oxford: Oxford University Press.
24. Hanegraaff, W.J., Western Esotericism: A Guide for the Perplexed. 2013, London: Bloomsbury Academic.
25. Doyle White, E., Wicca: History, Beliefs, and Community in Modern Pagan Witchcraft. 2016, Brighton: Sussex Academic Press.
26. Hutton, R., The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. 1999, Oxford: Oxford University Press.
27. Magliocco, S., Witching Culture: Folklore and Neo-Paganism in America. 2004, Philadelphia: University of Pennsylvania Press.


